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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Seres crepusculares.


Pôr do sol é metáfora poética, e se o sentimos assim é porque sua beleza triste mora em nosso próprio corpo. Somos seres crepusculares.

(Rubem Alves)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Manto de fantasia.


Assim, estamos destinados a viver fazendo amor com o que não existe. É impossível amar uma fórmula de física. Mas um poema, uma canção, um raio de Sol refletido numa gota d’água – isso nos comove. Amamos uma pessoa não por aquilo que ela é, mas pelo manto de fantasia com que a cobrimos.
(Rubem Alves)

quinta-feira, 13 de março de 2014

A menina e o pássaro.


Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.

Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…

— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…

E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.

Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.

— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

(Rubem Alves)


sexta-feira, 7 de março de 2014

Abrir mão.


Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.

(Rubem Alves)

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A busca comum.


As pessoas que me procuraram nos anos em que exerci a psicanálise eram todas diferentes e tinham queixas diferentes. Mas debaixo das múltiplas pequenas queixas havia uma única grande queixa: queriam ter alegria. Essa é a busca comum de tudo o que vive. Acho que até as plantas querem ser felizes. 


(Rubem Alves em "Palavras para desatar nós")

domingo, 22 de dezembro de 2013

Saudade.

Toda saudade é uma espécie de velhice. Velhice não se mede pelos números do chronos; ela se mede por saudade. Saudade é o corpo brigando com o chronos. De novo o mesmo poema de Ricardo Reis: ele fala do deus atroz que os próprios filhos devora sempre. Chronos é o deus terrível que vai comendo a gente e as coisas que a gente ama. A saudade cresce no corpo no lugar onde chronos mordeu. É um testemunho da nossa condição de mutilados – um tipo de prótese que dói. Kairós mede a vida pelas pulsações do amor. O amor não suporta perder o que se amou.

(Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA – Um caso de amor com a vida”)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Sabedoria da vida.



A vida tem sua própria sabedoria. Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata. Quem tenta ajudar o broto a sair da semente o destrói. Há certas coisas que têm que acontecer de dentro para fora.

(Rubem Alves)

terça-feira, 23 de julho de 2013

Não há tempo para tudo.


Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.

(Rubem Alves)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

quando você encontrar.



Quando você encontrar a outra metade da sua alma, você vai entender porque todos os outros amores deixaram você ir. Quando você encontrar a pessoa que realmente merece o seu coração, você vai entender porque as coisas não funcionaram com todos os outros. 

(Rubem Alves)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

o escritor.


                                               
“O escritor não é alguém que vê coisas que ninguém mais vê. O que ele faz é simplesmente iluminar com os seus olhos aquilo que todos vêem sem se dar conta disso. E o que se espera é que as pessoas tenham aquela experiência a que os filósofos Zen dão o nome de "satori": a abertura de um terceiro olho, para que o mundo já conhecido seja de novo conhecido como nunca o foi”. 
(Rubem Alves)

domingo, 1 de abril de 2012

o encontro.


Não havíamos marcado hora, 
não havíamos marcado lugar. 
E, na infinita possibilidade de lugares, 
na infinita possibilidade de tempos, 
nossos tempos e
 nossos lugares coincidiram. 
E deu-se o encontro.

(Rubem Alves)


                       
Você me chegou tão manso.
Como chegam aqueles amores 
que falam baixinho pra alma ouvir.

(Bibiana Benites)

sábado, 10 de março de 2012

álbum de minissonatas.



Compreendi, então, que a vida não é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira.

(Rubem Alves)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

"Perguntaram-me se acredito em Deus"


Acabo de ler na presença dessa maravilhosa noite estrelada e uma lua linda e sorridente, um livro que vou levar para sempre. Irei guardar dentro da memória e coração, para poder usar cada lição ao longo da minha jornada aqui na Terra. Quero guardá-lo para um dia poder lê-lo para meus filhos, netos, bisnetos... para meus amores. Que livro encantador, atraente, daqueles que dá vontade de devorar cada  capítulo, cada página, cada frase, cada citação, cada palavra... Que lição de vida! “Mestre Benjamin”, me ensinou que a vida é para se viver com amor, afinal: Ele teve um caso de amor com a vida. Postarei aqui, alguns fragmentos para dar aquele "gostinho de quero mais" em vocês, e quando tiverem a oportunidade, lê-lo também. 


“Deus é como o vento. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos sua música nas folhas das árvores e o seu assobio nas gretas das portas. Na flauta, o vento se transforma em melodia. Mas não é possível engarrafá-lo. No entanto as religiões tentam engarrafá-lo em lugares fechados a que elas dão o nome de ‘casa de Deus’. Mas se  Deus mora numa casa, estará Ele ausente do resto do mundo? Vento engarrafado não sopra. Deus nos deu asas. Mas a religião inventou gaiolas. Há pessoas que se sentem religiosas por acreditar em Deus. De que vale isto? 'Os demônios também acreditam e estremecem ao ouvir seu nome' (Tiago 2:19)                            
Tudo o que vive é pulsação do sagrado. As aves do céu, os lírios do campo. Até o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é uma música do Grande Mistério.
Não precisamos dizer o nome da rosa para sentir seu perfume. Não precisamos dizer o nome ‘mel’ para sentir sua doçura.”

“Você deve conhecer homens que dizem amar muitas, muitas mulheres. Eles saem pela vida à procura de namoradas e amantes e encontram muitas sem nunca encontrar alegria. O que eles encontram é prazer. Mas, de repente, por razões inexplicáveis, um deles encontra uma mulher que o fez esquecer de todas as suas namoradas e amantes. Nela o seu coração encontra alegria. Sua busca chegou ao fim. Assim é a vida. Quem está em busca incessante de muitos objetos de amor é porque ainda não encontrou o amor...”

“ Não andem ansiosos pela vida, pelo que irão comer ou beber. Nem pelo corpo, quanto ao que haverão de vestir. A vida é mais que comida. O corpo é mais que as roupas. Olhem as aves dos céus: não semeiam, não colhem, não ajuntam em celeiros. Contudo, a Vida cuida delas. E vocês valem muito mais que as aves... E qual dentre vocês, por ansioso que esteja, pode com sua ansiedade acrescentar um único dia à sua vida? E qual é a razão por que vocês se preocupam tanto com a roupa com que se vestem? Vejam como crescem os lírios do campo... E eu afirmo que nem mesmo os reis e as rainhas se vestem como qualquer deles. Vocês devem, em primeiro lugar, se preocupar com a sabedoria da vida e a justiça que nela há, e todas essas coisas lhes serão secundárias. Não fiquem inquietos por aquilo que ainda não aconteceu e nem sabe se acontecerá. Tratem de cuidar dos males de amanhã, amanhã. O mal de cada dia é suficiente para aquele dia.”

(Perguntaram-me se acredito em Deus – grande Rubem Alves)

sábado, 28 de janeiro de 2012

de dentro para fora.



Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata.   
Quem tenta ajudar um broto a sair da semente o destrói.  
Há certas coisas que não podem ser ajudadas.  
Tem que acontecer de dentro para fora.

(Rubem Alves)