terça-feira, 12 de abril de 2016

Os dias lindos.


Acontece em abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos.

E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor. A temperatura ficou amena, conduzindo à revisão do vestuário. Protege-se um tudo-nada o corpo, que vivia por aí exposto e suado, bufando contra os excessos da natureza. Sob esse mínimo de agasalho, a pele contente recebe a visita dos dias lindos.

A cor. Redescobrimos o azul correto, o azul azul, que há meses se despedaçara em manchas cinzentas no branco sujo do espaço. O azul reconstituiu-se na luz filtrada, decantada, que lava também os matizes empobrecidos das coisas naturais e das fabricadas. A cor é mais cor, na pureza deste ar que ousa desafiar os vapores, emanações e fuligens da era tecnológica. E o raio de sol benevolente, pousando no objeto, tem alguma coisa de carícia.

O ar. Ficou mais leve, ou nós é que nos tornamos menos pesadões, movendo-nos com desembaraço, quando, antes, andar era uma tarefa dividida entre o sacrifício e o tédio? Tornou-se quase voluptuoso andar pelo gosto de andar, captando os sinais inconfundíveis da presença dos dias lindos.

Foi certamente num dia como estes que Cecília Meireles escreveu: “A doçura maior da vida flui na luz do sol, quando se está em silêncio. Até os urubus são belos, no largo círculo dos dias sossegados”. Porque a primeira conseqüência da combinação de azul e leveza de ar é o sossego que baixa sobre nosso estoque de problemas. Eles não deixam de existir. Mas fica mais fácil carregá-los.

Então, é preciso fazer justiça aos dias lindos, oferecer-lhes nossa gratidão. Será egoísmo curti-los na moita, deixando de comentar com os amigos e até com desconhecidos que por acaso ainda não perceberam o raro presente de abril: “Repare como o dia está lindo”. Não precisa botar ênfase na exclamação. Pode até fazê-la baixinho, como quem transmite boato e não deseja comprometer-se com a segurança nacional. Mesmo assim, a afirmação pega. Não só o dia fica mais lindo, como também o ouvinte, quem sabe se distraído ou de lenta percepção sensorial, ganha a chance de descobri-lo igualmente. Descobre e passa adiante a informação.

A reação em cadeia pode contribuir para amenizar um tanto o que eu chamo de desconcerto do mundo. De onde se conclui: deixar de lado, mesmo por instantes, o peso dos acontecimentos mundiais trágicos, esmagadores, para degustar a finura da atmosfera e a limpidez das imagens recortadas na luz, é um passo dado para reduzir o desconcerto, na medida em que a boa disposição de espírito de cada um pode servir de prefácio, ou rascunho de prefácio, à pacificação, ou relativa pacificação, dos povos e seus dominadores. Em vez de alienação, portanto, o prazer dos dias lindos é terapia indireta.

Pode ser que o desconhecido lhe responda com um palavrão, desses em moda na sociedade mais fina. Não faz mal. Não se ofenda. Ele descarregou sobre a sua observação amical o azedume que ameaçava corroê-lo no íntimo. Livre desse fel, talvez se habilite a olhar também para o céu e a descobrir mesmo certa beleza esvoaçante no urubu. De qualquer modo foi avisado. Já sabe o que estava perdendo: a consciência de que certos dias de abril e maio são mais lindos do que os outros dias em geral, e nos integram num conjunto harmonioso, em que somos ao mesmo tempo ar, luz, suavidade e gente.

(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 10 de março de 2016

O cavalo.


O cavalo nos ensina a liberdade de ser quem somos e a ver as coisas como elas realmente são. Através de seus olhos conseguimos ver a simplicidade e a grandeza da Criação. 

(Rayana Krambeck) 

O tempo.



"Corre prepotente, 
para disputar lugar com o vento.
O tempo envelhece, não se emenda.
Deveria haver algum decreto 
que obrigasse o tempo a desacelerar 
e a respeitar meu projeto.
Só assim, eu daria conta dos livros
 que vão se empilhando,
das melodias que estão me aguardando;
Das saudades que venho sentindo,
Das verdades que ando mentindo,
Das promessas que venho esquecendo,
Dos impulsos que sigo contendo,
Dos prazeres que chegam partindo,
Dos receios que partem voltando.
Agora, que redijo a página final,
Percebo o tanto de caminho percorrido
Ao impulso da hora que vai me acelerando.
Apesar do tempo, e sua pressa desleal,
Agradeço a Deus por ter vivido,
amanhecer e continuar teimando..."

(Flora Figueiredo)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Ser intenso.


Ser intenso é meu jeito de ser eterno.

(Rethaís)

Prece.



Minha grande Deusa, permita iluminar-se também todo meu caminho com a tua energia divina. Faça com que as fagulhas deste cintilar espalhem-se por todo chão que eu pisar. 
Permita que ao falar eu possa convencer, que ao pensar eu possa alcançar e que ao esperar eu possa realizar. 
Que a força da tua grandeza invada todos os meus sentidos e que possa curar todas as minhas enfermidades. 
Penetre em minha aura e desta forma eu poderei leva - la comigo por onde for, com fé e determinação. 
Seja sempre muito bem vinda, trazendo fartura, amores, e nos ensinando todos os seus reais valores... 
Assim Seja!

(Cátia Garcia)

Atrás dos meus olhos.


Estude-me o quanto quiser, você não vai me conhecer, porque eu sou diferente em uma centena de maneiras daquilo que você vê ao me observar. Coloque-se atrás dos meus olhos e me veja como eu me vejo, pois eu escolhi morar num lugar onde seus olhos não podem alcançar. 

(Rumi)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Só mesmo agradecendo.


Em tempos em que quase ninguém se olha nos olhos, em que a maioria das pessoas pouco se interessa pelo que não lhe diz respeito, só mesmo agradecendo àqueles que percebem nossas descrenças, indecisões, suspeitas, tudo o que nos paralisa, e gastam um pouco da sua energia conosco, insistindo.

(Martha Medeiros)

Ai daqueles e daquelas.


Ai daqueles e daquelas, entre nós, que pararem com a sua capacidade de sonhar, de inventar a sua coragem de denunciar e anunciar. Ai daqueles e daquelas que em lugar de visitar de vez em quando o futuro, pelo profundo engajamento com o hoje, se atrelam a um passado de exploração e de rotina. 

(Paulo Freire) 

Tenho apenas.


Tenho apenas duas mãos e
 o sentimento do mundo.

(Carlos Drummond)

domingo, 17 de janeiro de 2016

Como um pé-de-vento.


 Levantar-me aos poucos, 
como um pé-de-vento, 
(...) e girando, girando sempre, 
tornar-me tormenta, furacão, vendaval...

(Caio F. Abreu)

Vivo, cada dia.


Vivo para florescer outros jardins e, sem perceber, o meu se abarrota de rosas e manacás. Vivo, cada dia, como se fosse cada dia. Nem o último nem o primeiro - O único.


(Pablo Neruda)

Para sentir.


Existe uma magia no mundo que podemos sentir,
Uma ternura nos seus olhos que me faz persistir,
Mudo de rumo, atravesso a estrada, subo ladeiras,
Me emburaco e me rasgo por caminhos tortuosos,
Somente pra viver nesta outra ótica,
para navegar nestes mistérios,
Para sentir, sentir profundamente o existir.

(Denise Portes)

A grandeza da nossa visão.


As infinitas maravilhas do universo são a nós reveladas na medida exata em que nos tornamos capazes de percebê-las. A grandeza da nossa visão não depende do quanto podemos ver, mas do quanto sentimos. 

(Carla Toscano)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Aliança com o bem.


Alimente apenas amor em seu coração. Quanto maior for sua aliança com o bem, maior será o bem em sua vida.

 (Paramahansa Yogananda)

Hábito.


Eu tenho o hábito de me apaixonar todos os dias: por mim, pela minha vida, por quem caminha comigo.

(Marla de Queiroz)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Mundo de ilusão.


Pobres mortais cegos por pequenas raivas, por imensos ódios e desavenças. Estúpidos humanos que tem a chave da nossa missão aqui e vivem com uma trava nos olhos. Bendito sejam os sentimentos nobres, as pequenas gentilezas, os gestos que engrandecem a alma, a palavra e o olhar que reconhecem o outro e o valor do outro. O amor, somente ele tem o poder de nos guiar e nos salvar deste mundo de ilusão. 

(Denise Portes)

domingo, 29 de novembro de 2015

Era como me fazia tão feliz.


Era como ele me fazia rir
não o riso, mas era como
ele me afundava as mãos
e me torturava de cócegas
nunca foram as gargalhadas
era essa maneira única em
que ele me tirava todo ar
e me matava por um triz
era como me fazia tão feliz
antes e depois de um sorriso.

(Cáh Morandi)

Não sofra mais.


Hoje amanheci tão bem! Como se durante a noite tivesse vindo uma fada, uma dessas fadas das histórias antigas, fadinha boa com sua varinha de condão, não sofra mais querida, disse tocando com a varinha a minha cabeça, não sofra mais, ficou repetindo, e nessa hora acordei e me senti diferente.

(Lygia Fagundes Telles)

Siga a sua natureza.


Veja o falso como falso,
o verdadeiro como verdadeiro.
Olhe para o seu coração.
Siga a sua natureza.

(Buda)

Deixe que se vá.


Se algo estiver ao seu alcance... desfrute.
Quando se for... deixe que se vá
com o coração cheio de gratidão.

(Osho) 

sábado, 28 de novembro de 2015

O riso.


É preciso se apaixonar pelo riso do outro antes de namorar.
É preciso se apaixonar pela gargalhada antes do romance.
O riso é a brisa farfalhante do rosto. O sopro benfazejo. O recreio das linhas faciais.
É preciso se apaixonar pelo jeito que a pessoa sorri para as fotos, pelo modo como sorri de canto, de boca inteira, flertando o infinito.
Mais do que gostar do corpo ou do olhar, deliciar-se com o riso, maravilhar-se com o riso. O amor não vive em cinema mudo. O amor não vive de legendas. O riso é Espírito Santo: fala todas as línguas.
Não há como se envolver sem admirar o som do contentamento de nossa companhia, o timbre por detrás da risada. O riso é decisivo. Não pode ser melhor do que a piada, nem reprimido como um resmungo.
Não pode ser histérico, muito menos desafinado.
Assim como não se ri olhando para o chão, o riso é o reverso do choro, altivo, otimista, levanta o queixo, bebemos o ar no gargalo do céu.
O riso é a música que cada um traz da orquestra de seu pulmão, desde quando fugia das cócegas de bebê, desde quando se escondia em pilares para receber o susto dos adultos.
O riso é a voz mais pura, determina como gememos ou sussurramos.
Cada um ri como um instrumento. Meu riso é do tambor. Rufadas de risos. Rio alto. Há também o riso safado de tamborim, o riso sensual do saxofone, o riso sério do trompete, o riso lânguido do violoncelo, o riso triste do violino. Nunca se fez um coral de risos, mas que bonito seria compor agudos e graves somente de sorrisos.
Ame o riso do seu amor, para ter vontade de fazê-lo feliz. Do contrário, fará de tudo para que seu par seja triste.

(Fabricio Carpinejar) 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Gratidão.


Que minha gratidão seja maior que meu ressentimento diante das adversidades. Que meu espírito saiba reconhecer os presentes por trás da rotina, e que na correria do dia a dia eu ainda possa me encantar diante dos pequenos gestos. Que eu esteja grato desde o primeiro espreguiçar da manhã, e que possa entender os desfechos do meu dia com serenidade ao cerrar os olhos. Que o meu semblante carregue não somente o pesar pelos infortúnios diários, mas que encontre motivos para sorrir ao primeiro vestígio de benevolência e paz. Que haja fé, apesar das tempestades. Que haja serenidade, apesar das turbulências. Que haja gentileza, apesar dos tropeços. E que permaneça a gratidão, sempre e em todo lugar.

O Universo devolve o que recebe. E ao demonstrar gratidão, um recado de amorosidade é enviado. Um reconhecimento pelas colheitas nos campos e em nossas vidas.
Que nenhuma penumbra impeça nosso espírito de se sentir acolhido e abraçado.



Talvez a gratidão seja um sentimento que necessita ser exercitado. E praticá-lo requer analisar nossa colheita diária buscando algo que possa ser devolvido com carinho ao Universo. Mesmo um dia puxado, carregado de dúvidas e frustrações tem sua parcela de bençãos. E a gente tem que se esforçar para tirar aquela gotinha de gratidão num mar salgado de inquietação.

Esta noite não haverá uma ceia onde nos daremos as mãos e agradeceremos juntos as bençãos em nossas vidas. Mas poderemos sim, no silêncio de nosso quarto, lembrar com gratidão o que temos de fato. O teto sobre nossas cabeças, a saúde que nos possibilita estar de pé, nossas amizades, a oportunidade de estudar ou trabalhar, nossa capacidade de amar, os pequenos trunfos que acontecem diariamente, as conquistas que nos fazem sorrir e enchem nosso peito de alegria.
Nem sempre haverá um circo dentro da gente. A maioria dos dias não tem banda animada nem soldadinhos marchando alegremente. Mas ainda assim, é possível agradecer pelo dom de ter um espírito livre, que nos garante uma boa safra no fim do dia. Dormir em paz, sabendo que nosso rio flui sem grandes desvios, é um milagre. E milagres têm que ser celebrados. Reconhecidos também. Que a gente possa reconhecer nossas dádivas, presentes miúdos que garantem a construção de nossa existência. E que cada dia arrecade a sua porção de fé e gratidão... Amém.

(Fabíola Simões) 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

O que nos imortaliza.


Todas as pessoas querem deixar alguns vestígios para a posteridade. Deixar alguma marca. É a velha história do livro, do filho e da árvore, o trio que supostamente nos imortaliza. Filhos somem no mundo, árvores são cortadas, livros mofam em sebos. A única coisa que nos imortaliza - mesmo - é a memória de quem amou a gente.

(Martha Medeiros) 

Tenho tudo, então.


(...) Toda minha riqueza está em meu coração. Toma! É teu meu abraço, olfato e tato, aconchegue-se em meu peito, esqueça o pronome, preencha o sujeito: somos extensão. 
Eu me tenho, nós nos temos. Tenho tudo, então. 

(Marla de Queiroz) 

domingo, 15 de novembro de 2015

Sou tudo que posso.


Sou uma cabeça dura de coração mole. A razão perde feio para o que sinto. Finjo que preciso dela, mas acabo sempre consultando a minha intuição. É mais forte do que eu, é ponto fraco. 
Meu jeito de perceber é com as sensações. Não ouço, absorvo. Não falo, me mostro. Existe muito de mim no que demonstro. O que digo consulta antes o que pressinto até decidir tomar forma.
No final, posso não ter razão, mas sou tudo que posso - e só posso se tiver coração no meio.
(Fernanda Gaona)

O mundo é só espelho.


Quem cultiva esperança colhe felicidade. 
A paz começa dentro, o mundo é só espelho.

(Vitor Ávila)

Gente fina, elegante e sincera.


Gente fina, é aquela que é tão especial, que a gente nem percebe se é gorda, magra, velha, moça, loira, morena, alta ou baixa. Ela é gente fina, ou seja, está acima de qualquer classificação. Todos a querem por perto.
Tem um astral leve, mas sabe aprofundar as questões, quando necessário. É simpática, mas não bobalhona. É uma pessoa direita, mas não escravizada pelos certos e errados:
sabe transgredir, sem agredir. Gente fina é aquela que é generosa, mas não banana.
Te ajuda, mas permite que você cresça sozinho.
Gente fina diz mais sim do que não, e faz isso naturalmente, não é para agradar. Gente fina se sente confortável em qualquer ambiente: num boteco de beira de estrada e num castelo no interior da Escócia. Gente fina não julga ninguém - tem opinião, apenas. "Um novo começo de era, com gente fina, elegante e sincera".
O que mais se pode querer? Gente fina, não esnoba, não humilha, não trapaceia, não compete e, como o próprio nome diz, não engrossa. Não veio ao mundo pra colocar areia no projeto dos outros. Ela não pesa, mesmo sendo gorda, e não é leviana, mesmo sendo magra. Gente fina é que tinha que virar tendência. Porque, colocando na balança, é quem faz toda a diferença. 

(Martha Medeiros) 





O que é o amor?


Amor, o que é o amor? Não creio que se possa realmente pôr em palavras. Amor é entender alguém, se importar, compartilhar as alegrias e tristezas. Isso pode incluir o amor físico. Você compartilha alguma coisa, dá alguma coisa e recebe algo em troca, seja ou não casada, tenha ou não um filho. Perder a virtude não importa, desde que você saiba que, enquanto viver, terá ao lado alguém que a compreenda e que não precisa ser dividido com ninguém mais! 

(Anne Frank) 

sábado, 7 de novembro de 2015

Que todo mundo tenha.


Que todo mundo tenha um amor quentinho. Descanso pro complicado do mundo. Surpresa pra rotina dos dias. A quem esperar. De quem sentir saudades. Um nome entre todos. O verso mais bonito. A música que não se esquece. O par pra toda dança. Por quem acordar. Com quem sonhar antes de dormir. Uma mão pra segurar, um ombro pra deitar, um abraço pra morar. Um tema pra toda história. Uma certeza pra toda dúvida. Janela acesa em noite escura. Cais onde aportar. Bonança, depois da tempestade. Uma vida costurar na sua, com o fio comprido do tempo.


 (Briza Mulatinho)

Sentir as coisas.



Quero a delícia de poder sentir as coisas
cada dia mais simples.

(Manuel Bandeira)